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Mobilidade ativa, ruas arborizadas e espaço para pessoas:
quando a cidade prioriza a vida, o deslocamento vira experiência.
Se você já se sentiu exausto ao enfrentar um trânsito
interminável ou impotente ao caminhar por uma rua sem calçada, você compreende,
mesmo que intuitivamente, a urgência desse debate. A forma como as cidades são
organizadas interfere diretamente na qualidade da vida cotidiana, na saúde
física e mental, na possibilidade de encontro, na autonomia e até na percepção
de dignidade. Por isso, pensar mobilidade, acessibilidade e democracia urbana
não é um exercício técnico isolado. É um exercício político no sentido mais
profundo da palavra.
As reflexões aqui desenvolvidas dialogam com o urbanismo
humanista e com uma leitura crítica da produção do espaço urbano. Partem da
compreensão de que a cidade não é neutra e de que o planejamento, quando não
tensionado pela sociedade, tende a servir mais ao capital do que às pessoas.
Nesse sentido, a mobilidade, a acessibilidade e a articulação social não são
apenas temas setoriais. São pilares estruturantes de uma cidade sustentável,
justa e verdadeiramente democrática.
Mudar o mundo pode parecer, à primeira vista, uma tarefa
grandiosa demais, quase ingênua. No entanto, essa mudança ganha contornos reais
quando deslocamos o olhar para a escala local. É na cidade que a vida acontece.
É nela que trabalhamos, nos deslocamos, criamos vínculos, exercemos cidadania.
A cidade é o espaço da política cotidiana, ainda que muitas vezes não a
reconheçamos assim. Reformar a cidade, portanto, não é um detalhe. É o primeiro
passo para reformar a própria sociedade.
Durante décadas, o planejamento urbano brasileiro
privilegiou a lógica do crescimento econômico e da valorização imobiliária. A
expansão da malha viária, a abertura de grandes avenidas e a priorização do
automóvel foram apresentadas como sinais inequívocos de progresso. Ao mesmo
tempo, os espaços de convivência encolheram, as calçadas foram negligenciadas e
os bairros populares foram empurrados para as margens. O resultado é uma cidade
fragmentada, onde o deslocamento é difícil e o encontro é raro. A rua, que
deveria ser espaço de convivência, tornou-se espaço de passagem apressada.
Nos últimos anos, contudo, emerge um novo desejo coletivo. A
busca por cidades para pessoas deixa de ser discurso acadêmico e passa a
integrar o vocabulário de movimentos sociais, coletivos urbanos e até de parte
do poder público. Não se trata apenas de uma estética mais “bonita” ou de
modismos importados. Trata-se de uma mudança de paradigma. Uma cidade pensada
para pessoas é, por definição, uma cidade mais política, mais inclusiva e mais
consciente de suas contradições.
Nesse processo, é fundamental compreender que a cidade é um
direito. O direito à cidade não se resume ao direito de estar nela, mas ao
direito de usufruí-la plenamente. Quando um morador reivindica iluminação,
transporte digno ou uma praça de qualidade, ele não está pedindo favor. Está
exercendo cidadania. Está moldando o futuro. A cidade que teremos amanhã é
consequência direta das demandas que fazemos hoje e, também, das omissões que
aceitamos.
A mobilidade urbana é um dos campos onde essa disputa se
torna mais visível. Com frequência, ela é tratada como questão de engenharia de
tráfego, como se fosse apenas um problema de fluxo de veículos. Mas mobilidade,
em sua essência, trata do deslocamento de pessoas. Trata do direito de ir e
vir, que não é apenas constitucional, mas existencial. Sem mobilidade, não há
acesso ao trabalho, à educação, à cultura, à saúde. Sem mobilidade, a cidade se
fecha em si mesma e aprofunda desigualdades.
O modelo rodoviarista, ainda dominante em muitas cidades
brasileiras, enfrenta um colapso evidente. O aumento contínuo da frota de
veículos individuais gera congestionamentos, poluição atmosférica, ruído,
estresse e perda de tempo produtivo. A promessa de fluidez nunca se cumpre,
porque o sistema é estruturalmente ineficiente. Quanto mais se investe em vias
para carros, mais carros aparecem. É um ciclo conhecido e amplamente
documentado.
A alternativa não está em “melhorar o trânsito”, mas em
inverter a lógica. A pirâmide de prioridades precisa ser reorganizada. No topo
devem estar o pedestre, a pessoa com mobilidade reduzida, o ciclista e o
usuário do transporte coletivo. O automóvel individual, que ocupa muito espaço
e transporta poucas pessoas, precisa deixar de ser o centro do sistema. Isso
não é ideologia, é racionalidade urbana.
Além disso, a mobilidade está profundamente ligada à
economia. Uma cidade travada é uma cidade ineficiente. O tempo perdido em
congestionamentos é tempo subtraído da produção, do descanso, da convivência.
Investir em corredores de ônibus, em sistemas de transporte de média e alta
capacidade e em infraestrutura cicloviária não é apenas uma escolha
ambientalmente responsável. É uma estratégia de desenvolvimento. Cidades com
mobilidade eficiente são mais competitivas, mais atraentes e mais justas.
A acessibilidade, por sua vez, costuma ser tratada como um
tema específico, quase marginal. Muitos ainda acreditam que ela se destina
apenas a pessoas com deficiência. Essa visão é limitada e equivocada. A
acessibilidade é, na verdade, um princípio universal. Uma calçada com rampa
beneficia o cadeirante, mas também o idoso, a criança, a gestante, a pessoa com
sacolas, a mãe com carrinho. Um piso regular beneficia todos. Um semáforo bem
temporizado protege todos.
Quando projetamos a cidade pensando na vulnerabilidade,
criamos ambientes melhores para a coletividade. Esse é um dos princípios mais
consistentes do urbanismo contemporâneo. Se um espaço é seguro para uma criança
de oito anos e confortável para um idoso de oitenta, ele será adequado para
qualquer adulto em idade ativa. Essa lógica simples, mas potente, revela o
quanto ainda estamos distantes de cidades verdadeiramente inclusivas.
A falta de acessibilidade não é apenas um problema técnico.
Ela é uma forma de segregação. Quando uma pessoa deixa de circular porque a
calçada é ruim, quando um idoso deixa de sair de casa por medo de cair, quando
alguém em cadeira de rodas depende sempre de terceiros, a cidade está falhando.
E essa falha não é neutra. Ela exclui, silencia e invisibiliza.
Por isso, a acessibilidade deve ser entendida como indicador
de qualidade urbana. Cidades acessíveis são cidades mais humanas, mais gentis e
mais democráticas. Elas não impõem barreiras ao corpo. Elas acolhem. E esse
acolhimento físico é o primeiro passo para a inclusão social e econômica.
A luta por uma cidade saudável, sustentável e democrática
atravessa todos esses temas. Uma cidade saudável não é apenas aquela com
hospitais e clínicas. É aquela que reduz o estresse, promove o movimento,
oferece contato com a natureza e cria ambientes favoráveis ao bem-estar. A
saúde urbana começa na calçada, no parque, na praça, na sombra da árvore.
Começa no silêncio relativo de uma rua acalmada, no ar menos poluído, na
possibilidade de caminhar sem medo.
A sustentabilidade urbana, por sua vez, não se limita à
reciclagem ou à eficiência energética. Ela envolve densidade bem distribuída,
uso racional do solo, mistura de usos e proximidade entre moradia, trabalho e
serviços. Cidades espalhadas, dependentes do carro, são insustentáveis por
definição. Consomem mais energia, mais tempo e mais recursos. Produzem mais
emissões e mais desigualdade.
As cidades democráticas se reconhecem, sobretudo, pela
qualidade de seus espaços públicos. Praças, parques e ruas bem desenhadas
funcionam como extensões da casa, como salas de estar coletivas. Nesses
espaços, as diferenças sociais se encontram, se tensionam, se misturam. É ali
que a democracia cotidiana acontece, no convívio, no olhar, na presença. Quando
esses espaços são precarizados ou privatizados, a democracia se enfraquece.
A privatização do espaço público, ainda que muitas vezes
disfarçada, é uma ameaça concreta. Quando praças se transformam em
estacionamentos, quando calçadas viram extensão de bares sem critério, quando
parques são cercados e controlados, o direito à cidade é restringido. A cidade
deixa de ser de todos e passa a ser de quem pode pagar. Esse processo,
silencioso, corrói o caráter democrático do urbano.
Lutar por uma cidade sustentável significa também enfrentar
as ilhas de calor, a impermeabilização excessiva do solo e a supressão de áreas
verdes. As mudanças climáticas não são abstração. Elas já se manifestam nas
enchentes, nas ondas de calor, na instabilidade dos sistemas urbanos. Sem
árvores, sem drenagem adequada, sem espaços permeáveis, a cidade se torna
hostil e perigosa. A ecologia urbana é, hoje, uma questão de sobrevivência.
Nada disso, entretanto, acontece apenas por vontade técnica.
A transformação urbana é, sobretudo, resultado de articulação social.
Movimentos em defesa da cidade, conselhos municipais, coletivos de bairro e
associações são fundamentais para tensionar o poder público e fiscalizar
decisões. A cidade não se transforma de cima para baixo. Ela se transforma na
disputa, na pressão, na participação.
A trajetória de ativistas e estudiosos comprometidos com a
causa urbana demonstra que o conhecimento técnico, quando não se coloca a
serviço da sociedade, tende a reforçar desigualdades. O planejamento não pode
ser monopólio de especialistas desconectados da realidade cotidiana. A
participação direta da comunidade em instrumentos como o Plano Diretor é o que
garante que a cidade responda aos desejos de quem a habita, e não apenas aos
interesses do mercado imobiliário.
A articulação em rede é especialmente poderosa. Quando um
bairro conquista uma ciclovia, ele inspira outro. Quando uma comunidade garante
uma praça, ela fortalece a luta vizinha. Essas pequenas vitórias se acumulam e
constroem cultura urbana. A pressão organizada é, muitas vezes, a única força
capaz de frear projetos que priorizam o lucro imediato em detrimento do futuro
coletivo.
A cidade, vista de perto, é feita de gestos simples. Uma
calçada de 1,20 metro de largura, com piso regular e rampa bem feita, pode
devolver autonomia a um idoso que antes dependia de ajuda para ir à padaria.
Uma árvore plantada no lugar certo pode transformar a experiência de quem
caminha em um dia quente. Uma faixa de pedestre bem posicionada pode reduzir o
medo de atravessar a rua. Esses detalhes, somados, constroem qualidade de vida.
Quando alguém escolhe deixar o carro em casa e caminhar pelo
bairro, algo muda. A pessoa deixa de ser motorista isolado e passa a ser
cidadão presente. Observa, cumprimenta, reconhece. A rua ganha rosto. A cidade
ganha densidade humana. Esse tipo de transformação não aparece em planilhas,
mas aparece na vida.
A população precisa, cada vez mais, exigir que o orçamento
público seja destinado a calçadas, parques, transporte coletivo e espaços de
convivência, e não apenas a viadutos e obras viárias de alto impacto. Não se
trata de negar a infraestrutura, mas de reorientá-la. A pergunta não deve ser
“quantos carros passam”, mas “quantas pessoas se beneficiam”.
Todos nós já experimentamos o alívio de encontrar sombra em
um dia escaldante ou a angústia de ficar presos em um engarrafamento
interminável. Essas sensações são políticas, ainda que não as nomeemos assim.
Elas revelam o tipo de cidade que estamos construindo. A cidade não é apenas o
que nos cerca fisicamente, mas o que construímos coletivamente por meio da
nossa presença, da nossa luta e, também, da nossa indiferença.
Repensar a cidade exige coragem. Exige romper com modelos
naturalizados. Exige enfrentar interesses consolidados. Exige imaginar outras
possibilidades. Mas é também um ato de visão. Através das lentes da mobilidade
sustentável, da acessibilidade universal e da democracia urbana, podemos
redesenhar o cotidiano. Podemos transformar o asfalto frio em espaço de
encontro. Podemos transformar o trajeto em experiência. Podemos transformar a
cidade em lugar.
Se desejamos um futuro mais justo, precisamos começar agora.
Não amanhã, não depois da próxima eleição, não quando “sobrar recurso”. A
articulação entre técnica e desejo popular é o caminho. É nela que o
planejamento ganha sentido. É nela que a cidade deixa de ser projeto abstrato e
passa a ser construção coletiva.
No fundo, o que está em jogo é simples e profundo ao mesmo
tempo: que tipo de vida queremos viver? Uma vida confinada em carros, cercada
de muros e marcada pela pressa? Ou uma vida urbana, aberta, caminhável,
encontrável? A resposta a essa pergunta está escrita, todos os dias, nas ruas
que desenhamos e nas ruas que aceitamos.
E é por isso que a luta pela mobilidade, pela acessibilidade
e pelos espaços democráticos não é secundária. Ela é central. Ela é, em muitos
sentidos, a própria luta pelo futuro.
Frank Barroso
09/01/2026

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