O Brasil não é o fracasso que a Faria Lima pensa: história, complexidade e a armadilha do pessimismo financeiro

 

Eduardo Giannetti, economista, professor, autor e palestrante brasileiro 

O debate público sobre o Brasil costuma começar por um ponto quase automático: o fracasso. A narrativa é conhecida, repetida e, de certo modo, confortável para quem a reproduz. O país seria inviável, a economia não funcionaria, a política estaria irremediavelmente corrompida e a sociedade à beira do colapso. Esse discurso é especialmente recorrente em círculos ligados ao mercado financeiro, notadamente na Faria Lima, mas não se restringe a ela. Ele se infiltra na imprensa, nas análises de risco, nos relatórios de investimento e, pouco a pouco, no senso comum de parte da população. A ideia de que “o Brasil não tem jeito” circula como uma verdade autoevidente.

É exatamente essa leitura que Eduardo Giannetti problematiza. Não para negar os problemas, nem para pintar um quadro cor-de-rosa, mas para desmontar a simplificação. O Brasil enfrenta desafios graves e persistentes. Isso é indiscutível. Mas transformá-los em sentença definitiva, em diagnóstico terminal, é intelectualmente pobre e politicamente perigoso. O país não vive um desastre estrutural contínuo, tampouco está parado no tempo. Há movimentos, avanços, recuos, contradições. Há, sobretudo, complexidade. E a complexidade incomoda quem prefere explicações rápidas.

A obsessão pelo fracasso não é um fenômeno recente. Ela atravessa a história brasileira. Desde o século XIX, parte das elites cultivou uma visão depreciativa do país, como se o Brasil fosse um erro de percurso, uma tentativa mal sucedida de civilização, uma cópia imperfeita da Europa ou, mais tarde, dos Estados Unidos. Essa mentalidade se sofisticou ao longo do tempo, ganhou verniz técnico, adotou a linguagem da economia e da gestão. Hoje ela aparece em planilhas, gráficos, indicadores e análises de risco. Mas a estrutura mental é a mesma: a ideia de que o Brasil é, em essência, um projeto falhado.

Giannetti chama esse fenômeno de “fracassomania”. Não se trata de uma crítica moral às elites, mas de uma análise estrutural. A fracassomania é uma narrativa obsessiva, que filtra a realidade para confirmar o próprio pessimismo. Nela, qualquer avanço é relativizado, qualquer política social é tratada como desperdício e qualquer ação do Estado é vista como entrave. É uma lente que enxerga sempre o copo vazio, mesmo quando há água dentro. E mais: é uma lente que ignora deliberadamente os processos históricos, os ganhos graduais e as transformações silenciosas.

A Faria Lima, enquanto símbolo desse pensamento, opera a partir de uma racionalidade específica. Trata-se de uma racionalidade de curto prazo, orientada por retorno imediato, volatilidade e expectativa. Isso não é um defeito em si. É a lógica do mercado financeiro. O problema surge quando essa lógica passa a ser utilizada como régua para medir um país inteiro. A economia real, a política, a sociedade e a cultura não funcionam no mesmo ritmo dos mercados. Elas se movem em ciclos mais longos, com inércias, resistências e acúmulos. Reduzir o Brasil a um ativo financeiro é empobrecer drasticamente o diagnóstico.

Quando essa racionalidade estreita se impõe, o Estado vira problema por definição, a democracia vira risco e a política vira ruído. Qualquer processo participativo é visto como ineficiência, qualquer negociação como atraso, qualquer conflito como ameaça. Giannetti alerta que essa visão ignora os ganhos institucionais, a construção lenta de capacidades estatais e o papel histórico das políticas públicas. O país não se faz apenas por decisões de mercado. Ele se faz por escolhas coletivas, por pactos sociais, por disputas políticas. E isso é mais lento, mais imperfeito e mais humano.

Um dos pontos centrais da argumentação de Giannetti é que os dados não confirmam o cenário de terra arrasada que muitos anunciam. Isso não significa negar problemas, mas reconhecer avanços. Nos últimos anos, por exemplo, o Brasil registrou uma queda expressiva nas mortes violentas, da ordem de 30%. Trata-se de um dado relevante, ainda que a percepção de insegurança permaneça alta. E é compreensível que permaneça, porque a violência deixa marcas profundas. Mas percepção não é sinônimo de realidade estatística. E os números indicam melhora. Ignorar isso é desonesto intelectualmente.

O mesmo vale para o Índice de Desenvolvimento Humano. O Brasil subiu posições. Não de forma espetacular, nem rápida, mas consistente. Educação, renda e expectativa de vida avançaram. Lenta e desigualmente, é verdade. Mas avançaram. Há décadas, milhões de brasileiros viviam sem acesso à escola, à saúde básica, à eletricidade. Isso mudou. Ainda há enormes lacunas, mas o ponto de partida não é o mesmo. A história importa. O processo importa.

Outro dado frequentemente ignorado é a saída do Brasil do mapa da fome da FAO. Depois de anos de retrocesso, o país voltou a reduzir a insegurança alimentar extrema. Isso não acontece por milagre. Acontece por políticas públicas, por programas de transferência de renda, por ações coordenadas. Desprezar esses resultados é, no mínimo, ideológico. Eles mostram que o Estado, quando bem orientado, produz efeitos concretos na vida das pessoas.

No mercado de trabalho, o quadro também é mais complexo do que a narrativa do colapso sugere. A taxa de desemprego caiu para níveis historicamente baixos na série recente. O desalento diminuiu. Mais pessoas voltaram a procurar trabalho. Isso não significa que o emprego seja de alta qualidade ou que a informalidade não seja um problema. Mas significa que há dinâmica. Há movimento. Há recomposição. Isso não combina com a ideia de um país em ruína permanente.

A comparação com os Estados Unidos é outro ponto explorado por Giannetti. E aqui a crítica é especialmente interessante, porque desmonta uma idealização muito comum. Os EUA são frequentemente apresentados como modelo absoluto de sucesso, eficiência e prosperidade. No entanto, os dados sociais revelam um quadro inquietante. O fenômeno das chamadas “mortes por desespero” — associadas a opioides, alcoolismo e suicídio — cresce de forma preocupante. Hoje, um jovem americano do sexo masculino tem maior probabilidade de morrer antes dos 50 anos do que em países muito mais pobres. Isso é um sinal claro de adoecimento social.

A concentração extrema de renda é outro dado perturbador. Os 400 americanos mais ricos concentram mais patrimônio do que cerca de 150 milhões de cidadãos. Essa desigualdade produz ressentimento, frustração e instabilidade política. Nesse contexto, figuras como Donald Trump não surgem do nada. Elas são sintomas de uma sociedade tensionada, não anomalias isoladas. A riqueza material, por si só, não garante coesão social. E isso deveria servir de alerta para quem imagina que desenvolvimento é apenas crescimento econômico.

A crítica de Giannetti à tecnologia segue a mesma linha: não é tecnofóbica, é prudente. Ele chama atenção para o efeito da narcose digital. O uso excessivo de telas fragmenta a atenção, dificulta a leitura profunda e reduz a capacidade de concentração. Universidades percebem isso no cotidiano. Alunos têm dificuldade de sustentar raciocínios longos, de ler textos densos, de argumentar de forma contínua. A mente salta, mas não aprofunda.

As redes sociais prometem conexão, mas entregam dispersão. Multiplicam contatos, mas rarefazem vínculos. A vida humana, lembra Giannetti, é feita de poucos laços profundos. Família, amigos próximos, relações de confiança. A hiperconectividade cria uma espécie de solidão barulhenta, cheia de estímulos, mas pobre em intimidade. Isso não é detalhe. Isso afeta a forma como as pessoas se percebem, se relacionam e se politizam.

A euforia em torno da inteligência artificial é analisada sob a mesma chave crítica. Desde 2022, empresas listadas nos Estados Unidos adicionaram trilhões de dólares em valor de mercado, concentrados em poucas gigantes de tecnologia. Esse valor não corresponde à riqueza real produzida. Corresponde à expectativa. À promessa. À narrativa. Bolhas são recorrentes na história do capitalismo. Ferrovias, dotcom, mercado imobiliário. A inteligência artificial segue esse padrão. Vai corrigir. A questão não é se, mas quando e com que impacto.

Um dos aspectos mais sólidos da reflexão de Giannetti é o uso da história como antídoto ao pânico. A perspectiva histórica relativiza crises, reduz o alarmismo e evita decisões impulsivas. A humanidade sempre viveu ciclos de expansão, excesso e correção. O Brasil, em particular, já enfrentou hiperinflação, moratórias, colapsos institucionais e crises políticas profundas. E sobreviveu. Isso não significa romantizar dificuldades, mas reconhecer resiliência.

Há também uma inflexão importante na trajetória intelectual de Giannetti em relação à democracia. Durante muito tempo, parte da esquerda tratou a democracia como instrumento, não como valor. A história mostrou o erro dessa leitura. Liberdade de expressão, voto periódico, alternância de poder não são ornamentos. São fundamentos civilizatórios. Não são garantias absolutas, mas são conquistas. A democracia não é fachada. É processo. É conflito regulado. É espaço de disputa.

A crítica ao maniqueísmo entre direita e esquerda completa o quadro. Essas categorias não são fixas. Elas se movem, trocam de posição, se reconfiguram. Hoje, a esquerda defende livre comércio em certos contextos. A direita flerta com protecionismo. No século XIX, conservadores defendiam a preservação ambiental, enquanto setores progressistas celebravam a industrialização sem freios. Rotular empobrece. O que importa é o conteúdo da questão, não a etiqueta ideológica.

Talvez o ponto mais original da reflexão esteja na ideia de que o Brasil não é uma cópia malfeita de ninguém. Nossa formação é afroameríndia, nossa cultura é híbrida, nossa sociabilidade é própria. Isso não é atraso. É potência. O Brasil pode ser uma potência cultural sem colonizar ninguém, sem impor modelo, sem se tornar caricatura de outro país. A imitação empobrece. A originalidade fortalece.

Nesse contexto, a esperança não aparece como ingenuidade, mas como método. Como escolha racional. Abandonar toda esperança, como lembra Dante, é entrar no inferno. A esperança não nega riscos, não ignora crises, não romantiza dificuldades. Mas impede o niilismo. E o niilismo paralisa. Uma sociedade que acredita estar condenada deixa de agir. E isso interessa a poucos, não a muitos.

O Brasil enfrenta desafios estruturais profundos. Desigualdade, violência, infraestrutura precária, educação desigual, racismo, exclusão. Tudo isso é real. Mas afirmar que o país é um fracasso irremediável é falso e politicamente nocivo. Essa narrativa desmobiliza, anestesia e serve a interesses restritos. A leitura proposta por Eduardo Giannetti é mais complexa, mais histórica e mais humana. Ela não promete milagres. Mas recusa o desespero. E reafirma um ponto essencial: o Brasil não está condenado.

Frank Barroso

09.01.2026

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